Ki

De Crônicas de Atlântida - Wiki
Mapa da cidade de Ki

Ki foi a primeira capital do antigo Império Cari e atualmente é a capital do vice-reino atlante de Kaldu.

A Cidade

Toda a cidade de Ki é uma demonstração da soberba dos antigos imperadores caris e principalmente do grande Dagana, que culminou na Torre de Anshar. Permitiam seus feitos no campo da edificação a riqueza natural de seu país, seu poder sobre os povos vizinhos subjugados e não menos o domínio absoluto sobre seus súditos. A pessoa, a força ativa e a propriedade de cada um dos habitantes do reino naturalmente estavam de modo ilimitado à disposição do divino imperador. Comandava-os ele com seus jumentos, bois, cavalos e carretas, mandando-os construir muralhas, diques, represas e canais, ruas magníficas, templos e palácios.

Ki é um retângulo cercado de muros, com nada menos de 24 quilômetros de comprimento lateral, tendo, por conseguinte uma superfície de 576 quilômetros quadrados, maior que a da própria Atlântis.

No auge do poder cari, sob Asar, a população da metrópole chegou a dez milhões de habitantes. Depois, chegou a decair para menos de dois milhões de habitantes. Atualmente, como capital do vice-reino atlante de Kaldu, sua população é de 4,32 milhões de habitantes, o que faz dela a segunda maior cidade do Império Atlante em população.

Típica residência de Ki

A cidade está cheia de casas de três e quatro andares. É cortada em linhas retas por ruas, em parte paralelas ao rio, em parte em sentido transversal ao mesmo. Cada uma tem o nome de um deus. As casas particulares, na sua maioria, absolutamente não são magníficas e nem as ruas são muito largas. A população divide-se em sacerdotes e funcionários, soldados da guarda palaciana, negociantes e artesãos, lavradores e escravos.

A vestimenta típica consiste de um saiote de linho que chega até os pés e sobre ele vestem outro, de lã, e por último ainda um pequeno manto branco. Os homens usam barba e cabelos compridos e envolvem a cabeça com faixas, besuntando todo o corpo. Todos usam um anel e um cajado esculpido.

O vice-rei e os sacerdotes usam vestimentas de luxo, de lã e seda, com bordados coloridos, tingidas com preciosa púrpura e entretecidas de fios de ouro. Tapetes ou cobertores de Ki, com desenhos bordados ou lavores de ouro alcançam preços fabulosos. Enchem o mundo de admiração o luxo, os mais preciosos produtos de todos os países que se acumulavam em Ki e os que os artesãos da metrópole deles fazem. Comerciam-se ali cobre e ouro de Musru, prata e estanho da Atlântida, incenso e especiarias de Bárria, púrpura de Tamana, azeite e vinho de Acaia, lã, seda e pedras preciosas da Aíria, especiarias, marfim e brilhantes de Bárata, pedras e cristais de Ofir. A grande Ki deixou de ser a capital do mundo, mas ainda é o principal entreposto comercial entre o Ocidente e o Oriente, entre o Império Atlante e seus rivais liderados por Agarta. Embarcações sobem e descem continuamente o rio Puratu para Ki.

As mais típicas, porém, são as que apenas descem: são redondas, sem que se possa distinguir popa e proa, e feitas de couro, com estrutura de vime e fundo coberto de juncos. O que mais transportam são barris feitos de palmeira, cheios de vinho. São dirigidas por meio de dois longos varejões, por dois homens de pé dentro dela. Em cada uma delas há um burro vivo, nos maiores até vários. Quando chegam ao fim da viagem, a Ki e ali colocam sua mercadoria, vendem também as varas de vime e todo o junco e só ficam com o couro que carregam no burro e com ele voltam às terras altas, pois é impossível navegar rio acima com essas embarcações.

Muralhas e Canais

O imperador Dagana protegeu Ki com um possante sistema de fortificações, composto de cinco muralhas. Circundou a cidade interna com uma muralha dupla cuja espessura, com o enchimento de terra entre as duas paredes de tijolos, é de 27 metros e sua altura, de 110 metros.

No alto da muralha há edificações de um andar, dispostas de maneira a sempre ficarem duas se confrontando. Entre essas torres, uma rua dá passagem para um carro de quatro cavalos. Há ao redor, em toda a muralha, 250 torres de guarda e cem portões, todos de latão, como o são também os esteios e as vigas transversais. Aquele monstro de muralha estende-se ao redor de um traçado urbano retangular, dos dois lados do rio Puratu.

Uma segunda muralha, não retilínea, cerca o castelo principal ou cidadela, o palácio de verão e o centro da cidade. A área por ela cercada cobre 75 quilômetros quadrados e 25 portões a conectam com o rio Puratu, que a atravessa diagonalmente. É a residência dos mercadores ricos e da nobreza.

Uma terceira muralha, dupla, cerca o núcleo central, o sagrado distrito dos templos. Sua extensão em sentido oeste-leste é de cinco quilômetros e seu comprimento norte-sul de três quilômetros, cobrindo quinze quilômetros quadrados.

Além do muro em torno da cidade externa, do muro intermediário dos dois muros em torno do centro da cidade, Dagana mandou construir ainda uma quinta fortificação no ponto onde o Puratu e o rio Idiklat mais se aproximam um do outro ao norte de Ki, que se estende de rio a rio com 30 quilômetros de comprimento.

Dagana também construiu quatro canais do Puratu ao Idiklat, dois canais paralelos ao Puratu e ao norte da Ki e uma represa para regular as inundações, criando um lago artificial de 480 quilômetros quadrados.

As duas metades da parte interna da cidade, separadas pelo Puratu, são ligadas por uma ponte de pedra com um quilômetro de comprimento. Sobre os pilares de pedra descem durante o dia, dos dois lados, pontes levadiças de madeira, pelas quais passam os habitantes de Ki. À noite, porém, a ponte é erguida, para que não passem durante a noite e roubem uns aos outros.

O Palácio de Dagana

A Torre de Anshar, vista dos Jardins Suspensos

Dagana ergueu na cidade externa seu palácio de verão e transformou o castelo meridional da cidade interna em seu palácio principal, por fora uma fortaleza de aspecto agressivo e sombrio, por dentro adornado com relevos de tijolos coloridos e com as riquezas do mundo inteiro. A sala do trono mede 90 por 36 metros. Sucessivas novas construções ampliaram o castelo, transformando-o numa cidade palaciana de 36 hectares e com uma periferia de 2,4 quilômetros, cercada por um parque de palmeiras e ciprestes. Reconstruído, hoje é usado pelos vice-reis de Kaldu.

Fazem parte do grande palácio de Dagana os Jardins Suspensos de sua esposa, Shamat. Oriunda da atual Aíria, então província cari, sentia saudades das suas montanhas pátrias. Não recuando ante as despesas, o imperador criou para ela uma paisagem de montanha. Mandou instalar uma série de jardins elevados, ascendentes, em forma de terraços, dos quais o mais alto fica na mesma altura das torres da muralha interna da cidade. Os jardins são sustentados por abóbadas de tijolos. Em baixo deles ficam salões nos quais nunca penetra um raio de sol e que são ainda refrigerados pela irrigação artificial dos jardins. É como uma instalação de ar condicionado em meio ao escaldante calor do verão de Kaldu.

O chão é aplanado e densamente plantado de árvores de toda a espécie, cujo tamanho e beleza apresentam um quadro agradável. As fileiras de salões recebem claridade por se projetarem uma acima da outra. Neles há muitos aposentos régios, para vários fins. Num deles, porém, que tem aberturas para a superfície culminante, está instalado um serviço de bombas, com o qual se pode trazer água à vontade do rio, sem que se perceba coisa alguma de fora.

A Torre de Anshar

A construção mais imponente de Ki, porém, é a enorme Torre de Anshar, com 200 metros de largura na base e 315 metros de altura, dedicado ao deus supremo do panteão cari. Seu possante volume domina o panorama da metrópole. A intenção de Dagana era “imitar o céu”. A torre devia manifestar não apenas o poder de Anshar, mas também o de seu representante na Terra e o esplendor de sua metrópole. Bruto e bombástico, coroava a presunção de Ki de ser o umbigo do mundo, do planeta que em sua língua se chamava Kishar (“O Horizonte de Ki”).

No templo de 15 metros de altura que constitui o último degrau da Torre, só é permitido o acesso aos sacerdotes. O templo é vidrado de azul por dentro e por fora e tinha telhado de ouro. Sobranceiro, de seu trono de trezentos metros, resplandece sobre toda a cidade e extensa região ao redor, santuário de Anshar e coroa de Kishar.

Há nele um grande leito com mantas e almofadas e, ao lado, uma mesa de ouro. Lá não está colocada nenhuma efígie de um deus e nenhum mortal passa ali a noite a não ser uma única mulher, sozinha, uma das filhas da terra, que o deus escolhe entre todas. Pois os sacerdotes afirmam que o próprio deus procura esse templo e dorme no leito. É também ali que os sacerdotes pesquisavam a trajetória dos astros.

O Templo de Belit

Também no distrito sagrado, fica o grande templo de Belit, a deusa do amor e da fertilidade, padroeira e protetora de Shamat, a esposa imperial de Dagana. Cada mulher de Ki deve ir pelo menos uma vez na vida nesse santuário e entregar-se a um homem estranho. Muitas, que não querem misturar-se com as outras mulheres por se orgulharem de sua riqueza, vão em carro fechado até o santuário e muitas aias as seguem. Muitas mulheres ficam sentadas juntas nesse distrito sagrado, com um cordel enrolado em torno da cabeça, como uma coroa. Umas vêm, outras se vão embora. Entre as fileiras de mulheres sentadas, há estreitas passagens em todas as direções, dê modo que os estranhos possam andar entre elas e escolher uma delas.

Uma vez ali sentada, a mulher não pode voltar para casa antes que um homem estranho lhe ofereça dinheiro e ela se entregue dentro do templo. Ao oferecer-lhe o dinheiro, porém, ele deve dizer: “Chamo-te em nome de Belit”. O montante da quantia em dinheiro não tem qualquer importância; ela não o pode recusar, tal não lhe é permitido. A quantia, seja qual for, pertence ao templo.

A mulher é obrigada a acompanhar o primeiro que lhe atira as moedas, não lhe sendo permitido recusar quem quer que seja. Quando se entregou ao homem, desta maneira tendo-se consagrado à deusa, ela volta para casa. As mulheres que despertam a atenção por sua beleza e seu porte não tardam a voltar para casa, mas as feias esperam muitas vezes longo tempo sem poder cumprir a lei. Acontece até esperarem dois a três anos.

Há também prostitutas profissionais em grande número que também realizam serviço divino; chamam-se escravas do templo (hieródulas) e transmitem as bênçãos e o poder da deusa do amor. Cumpre-lhes também fazer a limpeza dos templos, tecer vestimentas para o culto, e apresentam-se como bailarinas e cantoras, acompanhadas pela música de harpas, liras, tambores e timbales por ocasiões das festas religiosas ou também nas casas de ricos cidadãos de Ki. Consta que na grande cidade seu número é superior a 100.000.

O Templo de Rimmon

Ao lado do templo de Belit, ergue-se o templo de seu fogoso amante Rimmon, no qual os homens oferecem-se às mulheres de passagem, de forma análoga às mulheres no templo vizinho, sendo os valores doados ao respectivo templo.

O Templo de Hegal

Outro templo magnífico é o de Hegal, com 550 metros de comprimento, dedicado ao deus que era o padroeiro e protetor especial de Dagana. Dentro dele há uma grande figura sentada do deus, uma grande mesa, um tamborete e um trono, todos de ouro, totalizando mais de 21 toneladas de metal precioso. Há, no total, 53 templos e 1.300 altares em todo o distrito de templos, que também inclui depósitos, bazares e residências sacerdotais semelhantes a palácios. Ao redor, há inúmeras hospedarias para peregrinos, que de longe vêm a Ki para as grandes procissões de Hegal e Belit.

Dagana mandou construir especialmente para essas procissões uma rua magnífica, como ainda não existira outra igual. Ela começava na cidade externa, na grande cidadela, e através da famosa porta de Belit conduz para dentro da cidade interna. O enorme portão duplo é coroado de ameias e revestido de tijolos vidrados de azul, sobre os quais se destacavam mais de 500 relevos coloridos de touros e dragões. As portas são feitas de cedro e guarnecidas de chapas de cobre.

Passando pelo grande palácio de Dagana, na cidade interna, a avenida das procissões seguia para o sul, curva-se depois para o oeste e entre os dois distritos sagrados, com a torre e o Templo de Hegal, conduz para a ponte sobre o Puratu, que liga a metade oriental da cidade interna com a metade ocidental, menos luxuosa

A rua tem 23 metros de largura e é pavimentada com grandes placas de pedra. A parte situada na cidade externa, da cidadela até o portão de Belit, é ladeada por muros de sete metros de altura e vidrados de azul, nos quais, em relevos amarelos, brilham rosetas e cerca de 120 leões em marcha, cada um com dois metros de comprimentos. Entrar em Ki por aquela radiante avenida orlada de leões, através da porta de Belit, e depois deter-se ante a torre possante, que resplandece em dez cores, eis uma impressão que depois de Dagana talvez nenhum construtor de cidades tenha mais conseguido.

Nos dias santos passam pela luxuosa rua as grandes procissões que se dirigiam ao Templo de Hegal e até ao segundo degrau da torre. Os sacerdotes levavam estátuas dos deuses e de milhares de peitos ecoam cânticos em louvor ao deus.

O Templo de Shapash

Construído e dedicado pelo imperador Asar ao deus que considerava seu padroeiro e protetor especial, o templo de Shapash é um vasto espaço circular coberto por uma cúpula hemisférica com cerca de 250 metros de diâmetro e 150 de altura, cuja superfície externa é folheada a ouro e toda coberta com um efeito decorativo que lembra folhas de salgueiro. A superfície interna da cúpula representa em sua pintura a noite estrelada e um complexo mecanismo faz moverem-se planetas e constelações de acordo com as celestes, mostrando sua posição a qualquer momento da noite ou do dia.

O chão da cúpula é parcialmente pavimentado por enormes cristais de diferentes cores. Debaixo, existe uma cripta para uso exclusivo dos sacerdotes, onde a luz do sol filtrada pelos cristais é usada para fins mágicos e curativos.

Dessa cúpula, saem quatro grandes naves nas direções dos pontos cardeais. A extremidade do braço sul permanece aberta e constitui a entrada principal, de frente para o altar-mor, que ocupa a extremidade do braço norte. Sobre ele, pende um enorme espelho côncavo de prata polida. Ao longo do telhado do braço norte, corre uma fenda disposta para que por ela entre a luz dos astros e se reflita no espelho ao passar o meridiano.

No ponto do solo sob o foco, há um pedestal com um braseiro. Ao passar um planeta pelo meridiano, queima-se um punhado de incenso associado ao planeta que faz subir uma coluna de fumaça, na qual o espelho projeta a imagem do astro. Nesse ponto se realizam magias para as quais se considera necessária a particular influência do planeta. Quando é Shapash que passa pelo meridianos, esse mecanismo reacende seu fogo sagrado.

Os braços oriental e ocidental contêm também altares menores, consagrados a Entsu e Nikkal, pais de Shapash. Nesses altares, ardem perpetuamente os chamados fogos das luas, que se deixam extinguir, o de Entsu no equinócio da primavera, o se Nikkal no do outono. Na manhã seguinte, os raios solares, penetrando por um orifício aberto em cima do altar oposto, incidem sobre altar respectivo e, por meio de um cristal que permanece suspenso e serve de lente, Shapash reacende os respectivos fogos, então cuidadosamente velado e mantido aceso durante o ano seguinte.

Quatro grandes portais na cúpula abrem para dentro de pátios cujos muros se encurvam e se unem nos extremos, dando aos pavimentos a forma de enormes pétalas ou folhas. O conjunto é rodeado por uma larga avenida circular.

Do portal sul, parte uma longa avenida ao longo da qual Asar construiu vários santuários menores dedicados aos planetas, com hemisférios ou cúpulas e distâncias do Templo de Shapash que reproduzem, numa escala aproximada, o Sistema Shapash, cujas reais dimensões foram descobertas em seu tempo. Desses santuários, o maior e mais distante é o de Anshar, que está a mais de dez quilômetros do portal e tem uma cúpula de 30 metros de diâmetro. O menor e mais próximo é o santuário duplo de Rimmon e Nuru, um de cada lado da avenida, a apenas quatorze metros da margem exterior da avenida circular. Cada um tem, não uma cúpula, mas um pequeno hemisfério alaranjado que se projeta de sua parede frontal, com apenas 60 centímetros e 40 centímetros de diâmetro, respectivamente. Do santuário de Kishar, a cerca de cem metros, projeta-se um hemisfério de 2,3 metros de diâmetro.

Por meio desses templos, o imperador quis ressaltar a grandeza de seu deus, menor apenas que Anshar, o céu estrelado já representado na grande Torre - embora um dos novos planetas descobertos pelos astrônomos caris recebesse também o seu nome e um santuário secundário nessa avenida.

Cada um desses santuários tinha sua própria cúpula, com a cor associada ao planeta pela tradição cari. Cada templo tinha à sua volta templos menores ou colunas que representam os principais satélites, conhecidos no tempo de Asar. Nas festas dedicadas a cada um dos respectivos deuses, seus devotos, ou seja, as pessoas nascidas sob sua influência, faziam oferendas nos devidos santuários. Nas festas de Shapash, todo o povo devia comparecer. Enquanto os filhos de Shapash entravam no próprio templo, os demais lhe davam voltas em anéis concêntricos na avenida circular à sua volta, representando os respectivos planetas em suas posições relativas.