Senzar

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O senzar é a língua oficial de Atlântida. Originado no continente de Muté, em torno da antiga cidade de Tolan, foi disseminado pelos conquistadores senzares por todos os seus domínios, embora muitas outras línguas continuem a ser usadas em todo o Império.

Fonética e escrita

Não existe uma escrita alfabética senzar, mas os gramáticos atlantes analisam fonemicamente as palavras de sua língua como compostas de 21 consoantes e 11 vogais.

Consoantes

O senzar tem 21 fonemas consonantais:

p b f t d tl dl l c,ç s z x k g h ' m n r w j
/p/ /b/ /f/ /t/ /d/ /tɬ/ /dɮ/ /l/ /θ/ /s/ /z/ /ʃ/ /k/ /g/ /h/ /ʔ/ /m/ /n/ /ɾ/ /w/ /j/


Bilabial Labio-
dental
Dental Alveolar Pós-
alveolar
Palatal Velar Labial-
velar
Glotal
Oclusiva p b     t d     k g   '
Nasal m     n          
Fricativa   f (v) c,ç s z x       h
Africada lateral       tl dl          
Vibrante       r          
Lateral       l          
Aproximante           j   w  

O w é pronunciado como [v] no início de sílaba.


Pronúncia rústica

Nas zonas rurais do reino de Atlântida, é comum ouvir-se as seguintes realizações, arcaizantes em relação à pronúncia da capital:

  • V é pronunciado como [w] (semivogal, representada na transliteração por W)
  • J é pronunciado como [j] (semivogal, representada na transliteração por Y)
  • R é pronunciado como [ɽ] (representado, na transliteração, por RH)
  • C é pronunciado como [ʦ] (representado, na transliteração, como TS)
  • X é pronunciado como [ʧ] (representado, na transliteração, por CH)
  • TL é pronunciado como [tɾ] (representado, na transliteração, por TR)
  • DL é pronunciado como [dɾ] (representado, na transliteração, por DR)

Vogais

O senzar possui, fonemicamente, onze vogais, com distinção de duração, que poderiam ser identificadas no Alfabeto Fonético Internacional aproximadamente como:

a ã ah e eh i ih o oh u uh
/a/ /ɐ͂:/ /ɑ:/ /e:/ /ɛ/ /i:/ /ɪ/ /o:/ /ɔ/ /u:/ /ʊ/


Anterior
não
arredondada
Central
não
arredondada
nasal
Posterior
arredondada
Fechada (longa) ih uh
Quase fechada (curta) i u
Semifechada (longa) eh oh
Semiaberta (curta) e o
Aberta (longa ou curta) a ã ah

Sílabas

As sílabas senzares têm a estrutura:
CV(C)

Os 36 encontros consonantais e consoantes iniciais possíveis são (com a respectiva transcrição em português):

  1. [b] B, b
  2. [bj] Bi, bi
  3. [d] D, d
  4. [dj] Di, di
  5. [dɮ] Dl, dl
  6. [f] F, f
  7. [g] G, g (sempre duro)
  8. [gj] Gui, gui
  9. [gw] Gü, gü
  10. [h] H, h (aspirado)
  11. [ʝ] J, j (fricativa palatal, alofone de [j] em início de sílaba)
  12. [k] K, k
  13. [kj] Ki, ki
  14. [kw] Qu, qu
  15. [l] L, l
  16. [m] M, m
  17. [mj] Mi, mi
  18. [n] N, n
  19. [nj] Ni, ni
  20. [p] P, p
  21. [pj] Pi, pi
  22. [ɾ] R, r
  23. [ɾj] Ri, ri
  24. [s] S, s
  25. [sj] Si, si
  26. [t] T, t
  27. [tj] Ti, ti
  28. [tɬ] Tl, tl
  29. [θ] C, c ou Ç, ç
  30. [θj] Ci, ci
  31. [ʃ] X, x
  32. [ʃj] Xi, xi
  33. [v] V, v (alofone de [w] em início de sílaba)
  34. [z] Z, z
  35. [zj] Zi, zi
  36. [ʔ] ’ (oclusão glotal, marca separação de sílabas antes de uma vogal)

As 11 vogais intermediárias possíveis são:

  1. [ɜ:] Ah, ah (“â” longo e fechado)
  2. [ɑ] A, a (“â” curto e aberto)
  3. [ɐ͂:] Ã, ã (“ã” longo e nasal, às vezes pronunciado como [aŋ], mas distinto de [ɑn], [ɑm], [ɜ:n] e [ɜ:m])
  4. [e:] Eh, eh (“ê” longo e fechado)
  5. [ɛ] E, e (“é” curto e aberto)
  6. [i:] Ih, ih (longo e fechado)
  7. [ɪ] I, i (curto, semi-aberto)
  8. [o:] Oh, oh (“ô” longo e fechado)
  9. [ɔ] O, o ("ó" curto e aberto)
  10. [u:] Uh, uh ("u" longo e fechado)
  11. [ʊ] U, u ("u" curto, semi-aberto)

E as 9 consoantes possíveis no final (mas nem sempre as sílabas terminam por consoante) são:

  1. [b] B, b
  2. [g] G, g (sempre duro)
  3. [d] D, d
  4. [l] L, l
  5. [m] M, m
  6. [n] N, n
  7. [r] R, r
  8. [s] S, s
  9. [w] U, u (só no ditongo [aw], também pronunciado [av])

Nos compostos, as consoantes finais b, g, d soam como p, k, t antes de outras consoantes surdas e s soa como z antes de consoantes sonoras.

O acento tônico cai, normalmente, na última sílaba. Para evitar equívoco, a transcrição em português pode assinalá-lo com acento agudo ou circunflexo, embora seja dispensável.

Escrita

A língua senzar usa cerca de 600 fonogramas para representar suas próprias sílabas, além de cerca de 1.000 caracteres hieroglíficos da língua cari que representam empréstimos cultos desse idioma, muito usados no vocabulário da magia, ciência e filosofia.

Morfologia

Em senzar, praticamente qualquer palavra pode ter várias funções gramaticais – substantivo, adjetivo, verbo, advérbio, partícula etc. segundo sua posição na estrutura da frase.

Todas as sílabas do senzar são também radicais monossilábicos com significados próprios. A maioria das palavras são formadas pela composição de dois ou mais desses radicais.

Por exemplo, de:

Ke (prostituta ou prostituto)
Ahr (arte)
Sin (sacerdote ou sacerdotisa)
Kon (governo, estado)
Le (fêmea)
Nan (macho)
Bau (unicórnio branco, macho ou fêmea)
Lon (unicórnio negro, macho ou fêmea)
Zi (leão ou leoa)
An (ser humano)

Formam-se:

Leahrké (prostituta-artista, hetaira)
Lekonké (prostituta do estado, geralmente a serviço de militares)
Lesinké (prostituta do templo, hieródula)
Nenzi (leão)
Nenbau (macho do unicórnio branco)
Lelon (fêmea de unicórnio negro)
Le’an (mulher)
Nen’an (homem)

Substantivos

Não existe flexão: masculino e feminino são formados pela composição com os radicais nan e le, respectivamente.

O número é especificado pelo contexto, pela composição com o radical mon (muitos, vários), ou pela composição com o radical que representa o número específico. Por exemplo:

Zimon (leões e leoas)
Nenzimon (leões machos)
Zizém (três leões)

Verbos

Não há conjugação verbal: a pessoa tem de ser especificada pelo pronome adequado. Tempo e aspecto são especificados por radicais adequados, por exemplo:

  • qua (passar, passado) para o pretérito imperfeito
  • tah ou (terminar, acabado) para o pretérito perfeito
  • jah (ser necessário, ser inevitável) para o futuro próximo
  • fad (destino, fado) para o futuro distante
  • tós (estar, continuar, permanecer) para um estado que prossegue
  • çar (estar no meio de, agora, estar presente) para uma ação que está em processo (presente contínuo)
  • riâ (começar) para uma ação que está se iniciando
  • xihn (fazer o favor) para um pedido (imperativo cortês)
  • pah (ser preciso, ser devido) para uma ordem

Por exemplo:

Tlos (agarrar, apanhar, caçar)
Van (querer)
Vanquâ (queria)
Tlostah (agarrou)
Vançar (está querendo)
Tlosriâ (está agarrando)
Tlospah (agarre!)
Tlosxihn (agarre, por favor)

A partícula ki tem sentido reflexivo (a si mesmo):

Tloski(caçar a si mesmo)

A partícula zahr tem sentido causativo (fazer, ordenar, causar algo):

Tlozzahr (fazer caçar, mandar caçar)

A partícula bi tem sentido apassivador (sofrer, ser paciente de):

Tlozbi (ser caçado)

Pronomes

Pronomes pessoais

  • áh - eu
  • ni - você, informal
  • neh - vós, formal, normalmente seguido de sufixo de tratamento (ver abaixo)
  • da - ele, ela ou isso
  • ça - eu e você, nós inclusivo, referindo-se a apenas duas pessoas

Um complemento de pluralidade (mon), singularidade (ad) ou dualidade (lu) é usado quando o contexto não basta para determinar singular ou plural ou se quer enfatizar o número. Por exemplo:

  • ahmon - nós exclusivo, nós outros, não incluindo você
  • nimon - vocês, informal
  • nehmon - vós, formal
  • çamon - eu e vocês, nós e você, nós e vocês, referindo-se a três ou mais pessoas
  • damon - eles, elas
  • ahad - só eu
  • ni'ad - só você
  • nilu - vocês dois
  • nehad - só tu (formal)
  • da'ad - só ele
  • çalu - só eu e você

Um complemento de gênero pode ser acrescentado para determinar ou enfatizar essa qualidade:

  • nendâ - ele (masculino)
  • ledâ - ela (feminino)
  • leni - você mesma (feminino)
  • le'áh - eu mesma (feminino)
  • le'ahmon - nós mesmas (feminino)

Pronomes demonstrativos

  • tle (este, esta, esse, essa)

Sufixos de tratamento

Em senzar, sufixos de tratamento são normalmente agregados aos nomes das pessoas com as quais se fala. Usar um sufixo que pressupõe uma amizade ou intimidade não reconhecida pelo outro é desrespeitoso. Dispensar o sufixo é aceitável no meio de uma conversa relaxada, se o estatuto e a natureza do relacionamento estiverem bem claros, mas em uma conversa mais tensa ou formal sugere hesitação quanto à natureza da relação com o interlocutor, ou dúvida em relação ao estatuto que o outro de fato merece.

Usar explicitamente um sufixo de estatuto inferior ao devido é ofensa grave, salvo equívoco desculpável de um estrangeiro não iniciado nos costumes locais, promoção recente ou falta de insígnias reconhecíveis. Na dúvida, é preferível conferir a um estranho um estatuto mais elevado do que o aparente e transferir-lhe o dever de corrigi-lo, se for o caso.


Numerais

  1. ad (um, unidade)
  2. é ou lu (dois) (*)
  3. zem (três)
  4. zih (quatro)
  5. u (cinco)
  6. rog (seis)
  7. xad (sete)
  8. pod (oito)
  9. (nove)
  10. sab (dez)
  • 0 lin (zero)
  • 100 bás (cem)
  • 1.000 xen (mil)
  • 10.000 men (dez mil)
  • ½ pon (meio, metade)
  • mon (vários, três ou mais)

(*)lu apenas para pares complementares (mãos, pés, orelhas, luvas, sandálias etc.).

Os numerais cardinais seguem normalmente o substantivo que quantificam, inclusive em compostos e os ordinais normalmente os antecedem. Quando um numeral cardinal precede o substantivo (o que ocorre principalmente em compostos), isso quase sempre é o resultado da abreviação de um composto mais complexo. Por exemplo:

  • zemrem, literalmente "três-belonave", é a contração de (ber)zemrem, "belonave de três equipes", porque as tripulações dos navios de guerra atlantes são tradicionalmente divididos em grupos de 50 a 80 tripulantes.
  • mentôh, literalmente "dez mil - comandante", é a contração de (ze)mentôh, "comandante de dez mil guerreiros", "comandante de legião", general.

A palavra lu é usada como cardinal, após o substantivo, apenas para pares complementares (mãos, pés, orelhas, luvas, sandálias etc.) e não costuma ser usado como ordinal. Ao anteceder o substantivo, pode significar "duplo" ou "integrante de uma dupla", dependendo da construção e do contexto ou ainda ser o resultado da abreviação de um composto mais complexo. Por exemplo, lutal é uma tal (espada de um só gume) que faz par com outra arma (geralmente uma kem, espada de dois gumes), enquanto luzam significa "alma dupla" (masculina e feminina) e (zim)ludlau "que faz sexo com os dois (gêneros)" ou bissexual.

Posposições

O senzar usa posposições em vez de preposições, ou seja, essas palavras vêm depois e não antes daquelas que relacionam. Por exemplo, xu - "origem", "ponto de partida", "desde". Exemplo:

  • Ah-quan Kihn-xu larquâ

Tradução literal:

  • Eu-quan capital-desde vir-acabei.

Tradução livre:

  • Eu (um quâncios) acabo de chegar da capital (Atlântida).

Sintaxe

A ordem normal da frase é SOV (sujeito, objeto, verbo). Por exemplo:

Nenzi bau tlostah
Literalmente: Leão unicórnio agarrou (o leão caçou um unicórnio branco).

O adjetivo vem antes do substantivo, mas os numerais vêm depois.

O objeto indireto normalmente vem antes do objeto direto. Pode vir em outra posição se seguido do verbo-posposição gab (beneficiar, em prol de), ou se o contexto for claro. Por exemplo:

Ah ni-bã kem âd ka-vançar, ou:
Ah kem âd ni-bã-gab ka-vançar.

Literalmente:
Eu te-amigo espada-uma dar-querendo, ou:
Eu espada-uma te-amigo-benefício dar-querendo.

Em tradução livre:
Eu quero dar uma espada a ti, amigo.

Como nesse caso, há outros radicais que podem ser usados como posposições (equivalente a preposição, mas posterior ao complemento) ou conjunções. Servem principalmente para assinalar a função gramatical de uma palavra ou frase quando a construção é complicada ou pouco usual, ou para enfatizar uma relação.

Por exemplo, possessivos freqüentemente são formados por simples anteposição do determinante, mas quando não podem ser facilmente depreendidos do contexto, ou quando se deseja enfatizar a relação de propriedade, podem ser formados por composição com o radical tis (pertencer, propriedade). Por exemplo:

Zi Sin (templo do Leão, ou seja, do totem do clã que tem esse nome)
Zitis Sin (templo que é do Leão)

Frases comuns, frases feitas e provérbios costumam dispensar todo tipo de partícula, bem como marcadores de tempo, aspecto, número etc. O entendimento fica a cargo da convenção ou do contexto. Por exemplo:

Lelon van, Nenzi tlos

Literalmente: Unicórnia querer, Leão agarrar (O leão só agarra a unicórnia negra se ela quiser). Trata-se de um provérbio que expressa a percepção senzar de que cabe à mulher a última palavra nas relações amorosas.

Veja também