Senzares

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Os senzares são o povo do qual se origina a elite de Atlântida e do Império Atlante, bem como todas as dinastias que governam a ilha de Rutá e como a língua oficial senzar. Seus deuses são também os do culto oficial do Estado em todos esses reinos, embora permitam aos povos submetidos cultuar seus próprios deuses. De forma um tanto pejorativa, são chamados pelos acaios de phaiakes, "pardos" ou "escuros" (singular phaiax, feminino phaiassa) e pelos agartis de nagas, "serpentes", ou asuras, "inimigos".

Em Atlântida os senzares, ainda que constituam apenas metade da população, possuem um virtual monopólio das concessões de terra cultivável e a maioria dos postos mais elevados do Exército, da Marinha e da administração pública, embora haja exceções.

Tipo físico e estereótipos

Em média, os senzares são o povo de maior tamanho e força física entre os da espécie dominante de Kishar, embora sejam ultrapassados por humanoides de outras espécies, os lems e as gorgós. São de pele parda, cor de bronze escuro, semelhante à dos malaios e dos indígenas não mestiçados das Américas de nosso mundo. O tipo físico é atlético, bastante robusto para sua estatura elevada. Os olhos são geralmente negros e amendoados, o cabelo é liso, grosso e negro, os lábios finos, o nariz grande, a barba geralmente rala. As mulheres também tendem a ser fortes e atléticas, mas também curvilíneas, com seios, cintura e traseiro bem definidos.

Devido à endogamia tradicional, os senzares de um mesmo clã muitas vezes compartilhar traços e peculiaridades físicas distintivas. Por exemplo, os do clã Zi tendem a ser mais altos que a média e terem uma barba densa, os do clã Hihn costumam ter o nariz particularmente adunco e os do clã Ralfu a serem mais ágeis e magros.

Os senzares têm a reputação de serem autoritários, arrogantes e destemidos, o que está naturalmente ligado ao fato de estarem entre eles a maioria dos detentores do poder político e do comando militar. São muito ciosos das tradições de seu povo e de seus clãs e desconfiados em relação a ideias novas, principalmente quando envolvem pensamento lógico-formal e uso de mecanismos, que julgam ser prejudiciais às habilidades intuitivas, físicas e mágicas que muito valorizam. Mesmo no campo militar, as inovações são vistas, na melhor das hipóteses, como males necessários e aceitas apenas quando isso lhes parece absolutamente indispensável à manutenção do predomínio sobre seus rivais.

Costumes

Os senzares têm uma tradição matrilinear: o nome de família, a nobreza e a propriedade são normalmente transmitidos por via materna, de mãe para filho ou de tio materno para sobrinho. A infidelidade sexual não é considerada uma falta grave e demonstrações de ciúme explícito, apesar de não serem desconhecidas, são consideradas de mau gosto.

A relação entre irmãos é fundamental e os tios e tias maternas têm um papel fundamental na disciplina e na educação dos sobrinhos. Enquanto a relação entre pai e filho costuma ser amigável, benevolente e informal, o tio materno mais velho, no papel de representante masculino da linhagem matrilinear, representa a autoridade por trás das imposições e obrigações que cabem aos sobrinhos do sexo masculino cumprirem. Essa autoridade é chamada poder avuncular.

O menino é solicitado pelo tio a realizar certos serviços para a família dos parentes matrilineares, tais como o cultivo da terra e ao transporte da colheita. Ao realizar esses trabalhos junto a seus parentes matrilineares, o menino começa a sentir que é parte da família do seu tio, e não da do pai. É através dessa convivência que ele aprende as tradições, mitos e lendas de sua família e clã, a cujos ideais deve corresponder. Ele aprende também que, no futuro, lhe caberá, assim como coube ao seu tio materno legar aos sobrinhos seu nome e tradições, tais como conhecimentos relativos à magia, danças e cantos.

Sua irmã deverá tratá-lo com respeito e certa distância, como faz sua mãe em relação ao seu próprio irmão. O incesto entre irmão e irmã, apesar de freqüente na mitologia, é o tabu mais grave dessas sociedades (o incesto entre pai e filha ou mãe e filho também é proibido, mas visto com menos horror). Há pouca diferença entre os direitos e privilégios dos dois sexos, salvo no exército e marinha, onde predomina o sexo masculino (embora existam guerreiras mulheres e tropas de amazonas) e no judiciário, onde predominam as mulheres.

Os jovens devem esperar por sua iniciação sexual uma cerimônia celebrada por um sacerdote o sacerdotisa em data vista como astrologicamente propícia, geralmente até um ano depois do início da puberdade. Depois disso, podem conduzir sua sexualidade informal com muita liberdade, mas espera-se que acatem os interesses do clã e a orientação dos mais velhos ao decidirem quanto a seu casamento. O casamento é normalmente endogâmico, ou seja, um homem casa-se com uma mulher de outra família do mesmo clã. Casamento dentro da mesma familia é proibido e considerado incesto, mesmo que o parentesco seja distante ou adotivo; casamento fora do clã, embora não seja proibido, é incomum e geralmente mal visto.

A lei e o costume senzares permitem aos cidadãos livres a poligamia limitada a três parceiros legítimos – duas esposas legítimas para um marido, ou dois maridos legítimos para uma esposa – desde que haja o consentimento dos três participantes, mas a maioria dos casamentos são monogâmicos. A posse de concubinas e concubinos, cativos ou não, é permitida e comum em famílias ricas e a infidelidade, conquanto não seja demasiado ostensiva, é tolerada em ambos os sexos.

Os membros da realeza podem praticar a poligamia livremente, com qualquer número de parceiros, mas apenas o casamento com outros membros do clã Xar é legítimo. Sua união com membros de outros clãs é legalmente concubinato.

Dualismo

Uma característica importante do pensamento tradicional senzar é o dualismo dos princípios opostos e complementares am, sombra, umidade, feminino e , luz, calor, masculino. Esses princípios são considerados necessários a todo tipo de equilíbrio natural, social ou espiritual, o que se reflete, por exemplo, no fato de praticamente todas as instituições senzares serem lideradas por duas pessoas. No caso das instituições relacionadas ao parentesco, tais como a família (ver matriarca e patriarca), o clã (ver grande matriarca) e grande patriarca e o próprio Império (ver Casal Imperial, essas duas pessoas são costumeiramente homem e mulher e têm autoridade equivalente, embora se esperem que dividam harmoniosamente suas responsabilidades. Nas instituições civis e religiosas, tais como guildas, templos, institutos e monastérios, os dois podem ser do mesmo gênero, conforme os estatutos de cada uma delas, mas igualmente costumam ter poderes iguais. Apenas nos órgãos militares e governamentais se nomeia um chefe supremo, com autoridade e responsabilidade para tomar decisões isoladamente quando necessário, mas este é sempre acompanhado por um "vice" ou lugar-tenente (xi-) que deve ser consultado quando possível, é seu substituto potencial e tem o dever de informar os superiores, ou em última instância o Casal Imperial, caso julgue que o titular abusa de suas prerrogativas.

Nomes próprios

Os indivíduos usam nomes triplos: nome do clã, seguido pelo nome da família e depois pelo nome pessoal. Nomes de clãs senzares derivam geralmente de nomes de animais, plantas ou fenômenos naturais; os de família, de alguma característica ou feito notável do ancestral tido como fundador da família. Nomes pessoais são mais ou menos arbitrários e podem ser livremente inventados, ou homenagear um herói, amigo ou parente morto.

Assim, um senzar chamado Zi Temtés Sistu (clã Zi, ou “leão”, família Temtés, “que resiste ao inimigo”, nome pessoal Sistu, “pântano oriental”, nome freqüente entre pessoas que vivem no leste da planície de Atlântida), que tenha o estatuto de quanciós, é chamado nos contextos mais formais de Zi-quan pela maioria das pessoas (inclusive subordinados), Temtés-quan por integrantes de outra família do mesmo clã e Sistu-quan por familiares. Em momentos menos formais, outras pessoas também o chamarão de Sistu-quan, mas só os realmente próximos o chamarão Sistu-pu, Sistu-ar ou Sistu-bã.

Parentesco

Em termos antropológicos, o sistema senzar de parentesco é do tipo "iroquês", no qual irmãos e primos paralelos são igualados com o mesmo termo (dahr se homens, ihn se mulheres) e não são admissíveis para relações sexuais e casamento, mas os primos cruzados (gal) pertencem a uma categoria diferente e podem se casar. Casamentos entre membros de clãs e povos diferentes sem parentesco conhecido são permitidos, mas menos comuns.

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Na formação de uma criança senzar, espera-se que os parentes maternos inculquem os valores coletivos e em especial os da família à qual ela pertence e cujo nome herda, visto se tratar de uma sociedade matrilinear. O lado feminino da parentela materna, principalmente a mãe e as tias maternas (mu) são consideradas as primeiras responsáveis pela socialização primária e o lado masculino, principalmente tios maternos (gob), pela socialização secundária. Já dos parentes do lado paterno se espera que estimulem a individualidade e a autonomia. O pai e tios paternos (fu) fazem contraponto às mu e as tias paternas (sós) aos gob.

Casamento e relações sexuais com essas categorias são também inadmissíveis. Como todos os membros da geração anterior do mesmo clã são considerados fu, mu, sós ou gob em algum grau, o relacionamento sexual com a geração anterior (para fins legais, todos que atingiram a maioridade antes do nascimento da pessoa em questão) é em geral interdito dentro do clã e incomum mesmo fora dele.

De forma análoga, todas as pessoas do mesmo clã e geração são classificadas como dahr e ihn se são filhos de homens da família paterna ou mulheres da família materna e gal em caso contrário, mesmo se não houver laços claros de parentesco. Quando o pai é de outro clã, os membros da família paterna são categorizados do mesmo modo, mas membros de outras famílias desse clã são consideradas não aparentadas.

Arquitetura

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As casas atlantes são geralmente formadas por quatro blocos em torno de um pátio central, no meio do qual há uma fonte ou poço. Efeitos decorativos são obtidos com a combinação de pedras negras, vermelhas e brancas nos muros e paredes. No meio ou no canto de um dos blocos costuma haver uma torre ou mirante, às vezes rematada por um domo pontudo. Costumam ser grandes e espaçosas, com dois a quatro pisos e muitos cômodos, frequentemente dezenas. Sempre há algum afastamento, um pátio ou jardim, entre uma residência e outra, apesar de ficarem mais juntas umas das outras em bairros mais pobres das grandes cidades.

Nas classes médias e populares, uma mesma residência geralmente abriga vários casais e gerações de uma mesma família matrilinear e sobrenome, junto com os maridos oriundos de outras famílias (normalmente do mesmo clã). Já na aristocracia, cada residência costuma servir a uma só família nuclear poderosa, junto com seus servos e agregados. De uma forma ou de outra, cada unidade residencial abriga pelo menos dez pessoas, tipicamente umas trinta e às vezes bem mais. Quando possível, as famílias de um mesmo clã procuram morar próximas umas das outras e frequentam-se muito, formando comunidades muito coesas dentro de sua vila ou bairro.

A mobília costuma ser simples e os espaços internos amplos e despojados, com paredes decoradas com afrescos vivamente coloridos. As janelas são providas de um material semelhante ao vidro, mas menos transparente e mais resistente. Os senzares geralmente preferem dormir em redes e sentar-se em bancos ou reclinarem-se em divãs. Cadeiras e tronos com espaldar são usadas apenas em situações de trabalho e cerimoniais.

Vestuário

Calças típicas do clã Zi
Calças típicas do clã Ralfu

O vestuário pode variar com o clima, a região, o clã e o estatuto social, mas em geral não está sujeito a modas passageiras. As roupas senzares costumam ser de cores vivas e brilhantes, em combinações tradicionalmente associadas a diferentes clãs. Assim, os membros do clã Zi tradicionalmente usam roupas de cor vermelha e amarela e o clã Ralfu, negra e amarela. O amarelo ou dourado como cor dominante é reservado à realeza.

Usam-se tecidos de algodão, linho, seda e lã. Em clima quente, os senzares de ambos os sexos podem usar tangas, calções, culotes ou saiotes e peito nu, embora as mulheres mais velhas às vezes prefiram usar bandôs. Em dias frios ou em climas mais frescos, principalmente nas montanhas, homens e mulheres usam túnicas sem mangas, cobertas se necessário por longos mantos de lã sobre os ombros. Sacerdotes costumam usar túnicas ou mantos longos, com cores e desenhos simbólicos. Magos às vezes usam roupas exóticas e idiossincráticas, carregadas de talismãs e amuletos.

Em ocasiões de luto, usam-se longos mantos azul-escuro, que cobrem a cabeça, envolvem todo o corpo e se estendem aos pés. Os juízes e juízas usam um manto semelhante de fibra não tingida, geralmente bege, que representa sua neutralidade em relação aos clãs.

Na cidade, principalmente entre a aristocracia, os trajes, mesmo se escassos, podem ser muito suntuosos. Pessoas de posses se cobrem de peças de ouro, prata e oricalco, grandes jóias de cores apropriadas ao clã e capas vistosas.

Na planície e nas praias, onde o solo é geralmente macio, as pessoas costumam andar descalças. Na cidade e em zonas pedregosas, costumam usar sandálias de couro ou mocassins. Não há saltos altos.

No campo e no litoral, as pessoas frequentemente trabalham nuas em dias quentes. Na cidade, a nudez total chama a atenção, mas não atenta ao pudor nem chega a chocar: as pessoas estão acostumadas a se verem nuas nas competições esportivas e nos banhos públicos. Os atlantes cultuam a beleza do corpo e dedicam muitos esforços a embelezá-lo pela ginástica, cosmética ou magia.

Culinária

A base da alimentação são legumes (principalmente soja e feijões) e cereais (principalmente arroz, trigo e milho), cozidos inteiros, como papas, em massas, farinhas, macarrões ou na forma de pães e bolos. Raízes, folhas, cogumelos e tubérculos cozidos e óleos vegetais também são consumidos. Frutas, do mel e cana-de-açúcar são usados nos preparos, mas doces e frutas cruas são comidos apenas fora das refeições regulares. Não se costuma consumir verduras, raízes, peixes ou carnes cruas, salvo entre algumas minorias de imigrantes ou em rituais especiais.

Peixes e frutos do mar são consumidos em grandes quantidades, principalmente na capital e no litoral, mas também em partes do interior junto a rios ou canais piscosos ou na forma de peixe seco. Ovos e certos insetos também são apreciados. A carne é consumida em menor quantidade e provém principalmente de caça, dos mastós ou de aves e secundariamente de animais de trabalho sacrificados (cavalos, elefantes, búfalos, touros etc.). Carne e laticínios são considerados alimentos rústicos, próprios para camponeses e são desdenhados pela nobreza e pelas classes médias urbanas. Estes apreciam, porém, os miúdos, principalmente língua e miolos, bem como o sangue e seus subprodutos, semelhantes à morcela e ao chouriço negro e o tutano.

A cozinha costuma ser fortemente temperada, principalmente na capital: pimentas, especiarias e óleos vegetais exóticos constituem um dos itens mais importantes entre as importações da Atlântida. Mesmo refeições simples de pão ou arroz cozido costumam ser condimentadas com veçó, um molho gelatinoso, fermentado a partir de peixes gordos, ervas e sal, semelhante ao garum dos romanos ou ao nuoc mam dos vietnamitas, ou então por molhos apimentados que lembram o caril indiano ou o chili mexicano. Alguns pratos típicos de Atlântis:

  • Vepar johzab, uma caldeirada de peixes e mariscos, fortemente condimentada com ervas, especiarias e leite de coco ao estilo da capital. Lembra uma moqueca e é acompanhada de arroz, milho ou trigo cozidos com caldo de peixe e veçó.
  • Vepar johdal, arroz frito com frutos do mar, peixe, ervas, especiarias, leite de coco e veçó.
  • Vequó etsor, caldo quente temperado com veçó, suco de frutas ou vinagre, ervas e especiarias.
  • Johsevé, enguias temperadas com especiarias, comidas com arroz quente.
  • Mastó otçah, cozido de sangue e miúdos de mastó com sucos de frutas ou vinagre e especiarias, comido com arroz ou massas.
  • Johmosmar, cozido de cereais, vegetais e especiarias

A comida é cozida ou frita em panelas de barro, cobre ou ferro, ou assada em fornos a lenha ou carvão vegetal. Come-se com as mãos, com colher ou com pedaços de pão folha (achatado), feito de trigo, arroz, mandioca ou milho. São comuns preparos previamente enrolados em massa de farinha, pão folha ou folhas vegetais cozidas (de uva, couve etc.) antes de serem servidos. Não se usam facas à mesa, pois toda comida é previamente cortada em pedaços de tamanho adequado. Usam-se cuias e cabaças vegetais ou tigelas de cerâmica ou porcelana, tanto para comida quanto para bebida. Taças e tigelas de vidro, cristal ou metais nobres são artigos de luxo, raramente encontrados fora das casas da nobreza.

Os atlantes bebem chás, sucos de frutas e uma grande variedade de bebidas alcoólicas fermentadas a partir de mel (matçó), seivas (hesçó), frutas (quoçó) e cereais (marçó). Geralmente, são bebidas mais fracas do que as mais comuns no nosso mundo moderno, exceto pelo vinho de uva de Acaia (outra importação importante) e suas imitações atlantes, consumidos principalmente pelas elites. Bebidas destiladas são conhecidas, mas pouco consumidas – são permitidas, mas vistas como drogas perigosas, da mesma forma que a maioria dos entorpecentes e alucinógenos.

Música

A música tradicional senzar de Atlântida é de caráter modal, predominantemente pentatônica no "estilo montanhês" e heptatônica no "estilo da planície" e é tocada com instrumentos simples de madeira. A orquestra tradicional, ainda a mais comum no interior, é formada por sete músicos: um cantor, uma cantora e cinco instrumentistas com laugam (alaúde atlante), xongam (harpa atlante), horgam (flauta de pã), fuhngam (flauta vertical) e begam (conjunto de tambores). Costuma ser duplicada para quatorze músicos em grandes festas e ocasiões solenes.

A capital tornou--se, porém, uma metróple multicultural na qual técnicas estrangeiras e híbridas e inovações musicais são constantemente experimentadas. Uma grande variedade de instrumentos derivados dos tradicionais, mas de diferentes tamanhos e materiais são conhecidos na cena artística metropolitana, bem como instrumentos de origem tlavatli, mugal e cari e invenções modernas, às vezes reunidas em orquestras de dezenas de instrumentos. Instrumentos de metal e escalas tonais e microtonais são usadas na mais sofisticada música metropolitana.